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SENTIMENTALISMO: Eu preciso da luz que me salva da escuridão
Enquanto as ultimas folhas que ainda restam nos galhos negros, das árvores do meu quintal, caem, eu fico sentado no meu velho sofá, lendo os últimos capítulos do meu livro de Nabokov e me apaixonando ainda mais pelo enredo de toda a história. Vou dando pausados goles no meu café quente, aproveitando o frio matinal desses últimos dias do outono. Porque tem sido assim essa estação inteira. Dias em que o sol nasce pela janela da cozinha e logo depois nuvens carregadas da chuva gélida flutuam sob a estrela do dia, deixando tudo opaco, transformando aquela imensidão azul anil em cinzas. Com o tempo nostálgico as gotas cintilantes brilham até se colidirem com o chão, molhando a terra e fazendo subir aquele aroma que eu tanto costumava gostar. Mas hoje, não como antes – que adorava sentar no chão e observar aquela chuva toda passar, ver o sol sorrir de novo e esperar aquela aliança multicolor surgir sob minha cabeça- eu não me importo mais. Aquela felicidade toda que se continha em mim quando criança congelou e ficou no pretérito, e tudo que sobrou, invernou. Sem cores nem flores, um necrotério vivo dentro de mim. Ignorância se faz presente quando o medo me invade. As luzes estão apagadas, faço do silêncio um zumbido profundo, e espero um dia sair dessa negritude e conseguir ver novamente o sol entre aquelas fumaças suspensas na atmosfera, e aclamo com seriedade que quando minhas pupilas fitarem o sol, os raios entrarão pela minha alma e descongelarão minha solidão. Enquanto isso, vou observando as redenções dentro das pequenas gotas de água, que cintilam e me fazem elucidar.
SENTIMENTALISMO: Você acredita?
Questionaram-me uma vez se eu acreditava em amor à primeira vista, e sem hesitar eu respondi com um não.
É totalmente estúpido uma pessoa acreditar nisso. Camões já dizia que “Amor é fogo que arde sem se ver”. Não venha confundir a atração que desperta seus olhos ao ver uma pessoa que achas bonito, com amor. Porque não se ama com os olhos.
Sinta. O fogo que sobe das pernas à cabeça, a paisagem que gira em sua volta, o cambalear das pernas enquanto caminha até a direção daquele que amas. Sinta o desejo nos beijos e a vontade febril de ter ele pra sempre. Sinta as palavras que ele sussurra em seu ouvido no meio da noite, sinta os abraços e tudo o que ele sente por você. Sinta-o e o deixe te sentir. Se o amas não é preciso palavras, ele sentirá o seu amor, assim como o inverso. Não gaste sílabas tentando se expressar, acaricie-o e deixe-o sentir o quanto se importa e o quanto quer ele bem. Deixe-o sentir que você necessita dele, então ele vai abraçar-te e fazer-te sentir amada. Cuidarás do seu coração e você tratará o dele como se fosse o teu. O mundo não vai afetá-los e o amor será o suficiente.
É possível? É possível sentir tudo isso quando olhas para alguém? É possível amar sem ao menos conhecer? Consegues sentir os batimentos cardíacos dele e ele faz o teu acelerar? Isso é muito para uma única vez. Porque quando sentes algo por alguém na primeira vez que o vê não significa que está amando, não significa que ambos nasceram um para o outro e tampouco que as antíteses de Camões cabem a vocês. O amor precisa de tempo, precisa esperar ambos se conhecerem como se fossem dois velhos amigos, precisa esperar a paixão acabar e ver se o amor não termina na semana seguinte ou então se a paixão não recomeça na próxima esquina.
SENTIMENTALISMO: Fotografias não reveladas
Emoldurei as fotografias que você prometera-me que um dia estariam em um álbum velho, que depois que casássemos e tivéssemos uma família com um casal de gêmeos, eles levariam não só nossos cromossomos, mas essa grande e tão insignificante lembrança, esse nosso álbum de recordações medíocres e outrora clichês. Para assim guardarem pequenas partes das nossas memórias. Emoldurei também as promessas, que ambos não cumprimos e que esquecemos e que deixamos passar junto ao tempo, que foi perdido e nem os tons de sépia foram capazes de transformá-las em belas imagens capitadas pela minha velha e sem importância câmera. A mesma que esteve conosco em todos os bons e efêmeros momentos, e por mais invisível que suas lentes fossem, foram as únicas que conseguiram enxergar o quão perfeito era o teu sorriso, captavam nitidamente suas sardas e quase perdiam o foco quando os seus olhos esverdeados eram o escopo. Evidentemente, ainda no negativo, dava pra perceber meus olhos luzindo amor e anseio quando estavam apontados para você, um tolo que pensava ter tudo. Mas você nunca se entregou por inteiro, depois de um tempo você nem fazia questão de gostar dos flashes. Enquanto eu me remoía para tentar entender tudo o que acontecia, você descansava e ria, como um alguém que já não sabe o que quer ou que nada quer. E você se cansou. Cansou de estar do meu lado, cansou de me ajudar a revelar as nossas fotos, cansou de sonhar comigo, cansou de ser amada, cansou de fingir. Você se cansou de mim, então foi embora. O que não foi surpresa, mais uma vez sem respostas, mais uma vez machucado. Eu sempre fiz questão de entender porque as pessoas que eu mais amava sempre colocavam um ponto final. Mas dessa vez, com você, foi diferente. Eu não me importei com o porquê disso, já que sempre que eu buscava por respostas nunca as encontrava. Assim, sem me importar continuei com a mesma rotina. Mais uma vez tive que me reacostumar com uma parte a menos em mim, me reacostumar a viver sozinho e simultaneamente acompanhado. Acompanhado pelas discórdias e pendências. Nas fotos, o seu riso e sintonia foram obduradas. E assim como nas fotografias minha vida perdeu a saturação, o brilho e até mesmo o contraste. Hoje, coloco em uma bela moldura de madeira escura, para não esquecer-me quem realmente me tornei com minha rotina e meus devaneios, fotografias de uma vida que perdeu a essência, retratadas em preto-e-branco.
SENTIMENTALISMO: Prosas de um tolo
Meus pés estão no chão, mas um dia meu corpo flutuara.
Meus pensamentos fugiram do presente e voltaram para o seu lado, para o seu cheiro, sonhou com as suas sardas e seus beijos vertiginosos. Por dias eu não sabia o que comia nem o que bebia, não distinguia cores nem almejava flores, minhas pupilas dilatadas em meio ao quarto escuro, meu corpo deitado na cama, quase insensato. Eu estava ali, mas meus pensamentos andavam pelas ruas que ladrilhavam - como diz aquela canção. Meus amigos chamavam de amor, meu coração batia por amor, mas o dela não. Eu amei sozinho, imaginei sozinho, viajei sozinho, e sempre pensando em dois, sempre pensando em nós. Mas isso só entendi no fim, muito depois de perceber que meus olhos a fitavam, mas os dela nem me imaginavam, nos meus sonhos só ela aparecia, mas na realidade ela nem sabia que eu existia. Você sentiu a dor? Claro que não, minhas rimas não deixam transparecer toda a crueldade que machucou meu coração. Culpa minha de acreditar nas ilusões que eu mesmo criei, culpa minha deixar o coração mandar e esquecer da razão. Eu precisava disso, meu coração precisava sofrer pra conseguir aprender, eu precisava acordar e parar de sonhar. Mas hoje eu posso ver, porque um dia eu fora cego.
SENTIMENTALISMO: Paradoxo dos segredos
Eu fico me perguntando o que é mais preferível, em viver inundado de segredos – os mais intensos e significativos. Eu deveria contê-los? Digo, eu deveria poupar todos das minhas peripécias pouco plausíveis, que me fazem cair em prantos todas as noites, implorando por ajuda, e mesmo assim, ignorar as minhas súplicas, me remetendo à dor, deixando meus sorrisos adormecerem num sono efêmero, deixando o sentido egocêntrico do meu egoísmo decidir os caminhos a serem seguidos, mesmo sabendo que o final não seria o desejado? Ou eu deveria desabafar tudo com todos, fardando transparência, tornando-me um enredo previsível? Eu não sei. Pois sempre, ao tentar encontrar uma resposta viável, minha mente insiste em recorrer à comparações: como se toda essa transição do meu pretérito ao hoje, fizeram-me erguer um muro, na qual cada tijolo é um segredo, e a cada vez esse muro fica ainda mais alto, ainda mais forte. E você sabe, uma vez que esse muro me protege, ele pode me machucar, ou seja, eu deveria destruí-lo ou deixá-lo desabar?
SENTIMENTALISMO: Sobre Inocência e minhas quimeras
Na terra o sol manchava a sombra das leves silhuetas daquela laranjeira. O silêncio se fazia presente nas breves e sintonizadas pausas de quando pássaros cantarolavam. De baixo daquela laranjeira, estávamos eu e ela, aproveitando aquela sombra e sentindo a brisa gélida, que nos refrescava naquela tarde ensolarada. Eu estava sentado ao lado dela, folheando as páginas de um livro velho, chamado Inocência, que quando mais novo, minha mãe me dera.
E em atos involuntários, eu a fitava e perdia toda a atenção que prestava às paginas amareladas do livro. Aquela profundidade castanha dos belos olhos, o simples gesto de levar as mãos aos cabelos e jogá-los para trás, deixando evidente as sardas opacas que ela tinha nas maçãs do rosto. Eram inúmeros detalhes que me faziam fitá-la e levá-la para a negritude das minhas pálpebras, transformando tudo em cor, me desvairando com aquele sorriso torto. Lá estava eu,caindo em devaneio em baixo daquelas folhas verdes, sonhando com a terceira pessoa do plural. E a grande ironia de tudo isso, era que ela estava bem ao meu lado. Nessas horas é que me faltava a coragem de Cirino para aclamar à ela, tudo o que meu coração sentia e dizer bem alto que minhas pulsações eram dela. Nessas horas o amor que eu sentia não era grande o suficiente para enfrentar todo o medo que eu tinha, medo de não ouvir a resposta que eu gostaria, medo dela nunca mais querer passar as tardes livres sozinha comigo, medo de ter que enfrentar todas as consequências que eu poderia sofrer. Mas assim como Cirino tomou coragem e enfrentou Pereira, eu peguei a coragem e enfrentei o medo.
Quebrei o silêncio naquela sombra dizendo que eu a amava, foi tudo o que eu consegui, porque logo depois a coragem fugiu de medo, e minhas pernas sucumbiram quando aqueles olhos castanhos, pela primeira vez, me olharam com um brilho que eu jamais reconhecera. Naqueles segundos que pareceram horas, eu imaginei tudo, ela correndo e nunca mais olhando para mim, ela dizendo que eu estava louco, porque sim, de alguma forma a insanidade tinha me consumido, mas ela disseminou qualquer dessas minhas expectativas. Olhou nos meus olhos, algo como se minhas quimeras estivessem se tornando reais e meu sangue fervilhou em minhas veias quando ela sibilou, eu te amo: os lábios flutuaram e na ultima sílaba eles se encontraram.
SENTIMENTALISMO: O monólogo de uma rosa
E a rosa disse ao jardineiro:
– Sou eu feita de pétalas perfumadas, pintadas com o vermelho do sangue mais profundo que corre pelas tuas veias. A pigmentação tinge meu amor com tamanha pureza inimaginável, que exalam para olhares que pouco transparece e muito observam. Olhares como os teus, pequeno jardineiro, que cuidas de mim e me tratas com tanto amor desde que eu fora sintetizada pelo bico de um beija-flor colorido, batia as asas impacientemente tentando retirar o néctar da minha progenitora, aquela que me antecedera antes de encontrar a escuridão, antes de perder o pigmento e se tornar uma rosa negra. Rosa murcha, morta. A terra se tornara minha e suas mãos calejadas pertenciam só a mim. Traziam uma paz que me confortavam, os calos doíam em você, mas a mim só pacificavam. Sou flor inferior, tenho inocência tão grande quanto à de Humbert que caíra nas mãos perversas de Lolita. Deveras você, meu pequeno jardineiro, ser unicamente meu. O amor que tens guardado no peito seria do meu desfruto. Tuas mãos, teu calor, tua paz e teu interior deveriam ser meus. A piedade cai sobre os olhares dos que me julgam por ter essa ilusão que foi constituída sem uma única palavra dita, apenas na minha dedução. Pensara que tudo o que eu sentia por você era recíproco. Minha inocência feriu meu pudor. Relacionei-me por ventos que sopravam para o sul, ventos que carregavam o platonismo em suas viagens de longa data e que passavam por mim a todo instante, rejuvenescendo meu sentimentalismo, me fazendo amar você. Eu sei jardineiro, que o verão está próximo e meus dias estão acabando. Essa primavera fora a mais bela para mim quanto para outra rosa qualquer, meus espinhos foram os mais bem tratados pelas mãos mais hospitaleiras que possam existir em toda atmosfera. Agradeço pela terra que me acolhera e pelas chuvas que caíram sobre as curvas das minhas pétalas suntuosas, agradeço pelo acolhimento e por me permitir amar tamanha pessoa que não falava muito, mas que transparecia em todo toque. Aqui, meu pequeno jardineiro, eu fora feliz.
SENTIMENTALISMO: Amar os próprios defeitos
A aversão pela minha própria sombra me ensinou a crescer. Psicologicamente.
Em todas as esquinas, pessoas costumavam a me olhar de certa forma que me fazia sentir inferior. Rindo da minha imbecilidade e debochando com suas supostas “mentes superiores”. Confesso que sim, eu era imbecil. No final desses dias eu enxergava meu reflexo e não gostava do que via, eu ansiava por um sono eterno, eu desejava parar de incomodar essas pessoas que me olhavam com certo desgosto. Eu queria poupá-las da minha existência.
As pessoas só conseguiam enxergar meus defeitos (ou talvez, só queriam) fazendo com que meus olhos só enxergassem a minha negritude. O meu lado sombrio, o acervo dos meus defeitos. Esses olhares indecisos me despedaçavam por dentro, minha alma marejava e quase se afogava em meio a tantas lágrimas. Mas eu estaria mentindo se dissesse que, nesses momentos, eu aparentava uma força incomum e um não-ligo-para-o-que-dizem.
Minha expressão sempre deixava transparecer o oceano tempestuoso que meu interior tinha se transformado. As risadas já eram altas e a pseudo glória que eles insistiam em exibir, me atormentavam. Mas as piadinhas perderam a graça que nunca tiveram e eu comecei a mudar. Mudar o modo de pensar e de ver a minha sombra. Eu comecei a amar a minha escuridão. Porque, embora fossem meus defeitos, era esse meu lado escuro que me tornava diferente daquelas pessoas que destruíam a minha autoestima.
Meus defeitos, que eram as causas das minhas dores, agora me ajudavam a enfrentar tudo o que eu temia. A minha introversão, por exemplo, me fazia ignorar a realidade que eu não queria viver. Enfim, eles continuam rindo e falando sobre a minha imbecilidade. Mas eu não me importo mais, eu não pretendo me igualar e não me sinto superior a ninguém, aliás, eu os deixo rir, porque como já citava o clichê: quem ri por ultimo é retardado.
SENTIMENTALISMO: Nostalgia
Outro ano está acabando e eu ainda me pego refletindo sobre o quanto o mesmo fora igual aos que passaram. Lembro-me no final do ano passado, fazendo promessas a mim mesmo de que 2012 seria um ano diferente, prometi que mudaria. Mas isso tudo, não passou de expectativas que eu mesmo criei pra suprir essa minha necessidade de camaleão. Eu falei sobre planos, metas e desejos que agora, nessas ultimas noites de dezembro, eu fico agonizando-me.
Eu fico aterrorizado pelo fato de não ter aproveitado cada dia oportuno que me aparecera e eu simplesmente esquecera de viver, eu fico imaginando o quanto fui tolo ao pensar que as coisas melhorariam se eu deixasse o tempo percorrer, que o próprio fariam com que as minhas metas se realizassem sem ao menos eu ter me esforçado. Hoje, o silêncio da noite me tortura, gritando contra a minha vontade fazendo-me lembrar o quanto desperdicei, tentando me fazer aprender que o amanhã é incerto.
E acredite, eu entendi. Não vou me iludir com promessas ou me vestir com expectativas que eu sei que não vão dar certo. Não existe “ano que vem”, o que existe é o hoje, é o agora, que precisa ser aproveitado sem os medos que nos corroem. E será assim pra mim, vou viver em uma linha tênue, me equilibrando entre nada e tudo, sem pensar duas vezes, sem planos e metas. Apenas seguindo em frente... vivendo.
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